Não é mistério, para aqueles que me acompanham neste blog ou através de outro meio, o fato de eu me intrigar e refletir pormenorizadamente sobre os aspectos mais corriqueiros dos relacionamentos sociais. Este é mais um curto texto sobre isso.
Há alguns anos eu observo um fenômeno que considero um "ponto cego" de boa parte das pessoas com quem já convivi ou tive algum tipo de contato prolongado. Quando digo "ponto cego" refiro-me a características que temos e não percebemos - e muitas vezes nos incomodamos ao percebê-las nos outros.
Uma das modas de nossa época é a encenação de um culto à sinceridade irresponsável. Bem, socialmente usamos a palavra "espontaneidade", mas creio que sinceridade irresponsável é uma descrição mais precisa da postura prática à qual nos referimos.
Faço questão de dizer "encenação" porque na prática não é uma verdadeira admiração pela postura de sinceridade. Digo
sinceridade irresponsável pelo fato de que, em geral, as pessoas se acham merecedoras de aplausos ao agirem como julgam melhor, mas se outorgam a prerrogativa de rotular negativamente quem as atinge ao agir desta mesma forma. Posso ser sincero sem pensar nas consequências, mas não preciso aceitar as consequências da sinceridade de outros.
Ilustrando: se piso no pé de alguém não tive especificamente esta intenção. É que só sei andar deste jeito e o mundo deve me aceitar como sou. Mas, se outros pisam no meu pé, é porque gostam de pisar nos outros - ou deveriam aprender a olhar por onde andam.
sinceridade irresponsável pelo fato de que, em geral, as pessoas se acham merecedoras de aplausos ao agirem como julgam melhor, mas se outorgam a prerrogativa de rotular negativamente quem as atinge ao agir desta mesma forma. Posso ser sincero sem pensar nas consequências, mas não preciso aceitar as consequências da sinceridade de outros.
Ilustrando: se piso no pé de alguém não tive especificamente esta intenção. É que só sei andar deste jeito e o mundo deve me aceitar como sou. Mas, se outros pisam no meu pé, é porque gostam de pisar nos outros - ou deveriam aprender a olhar por onde andam.
Uma forma simples de perceber a quê me refiro é percorrer atentamente o feed das redes sociais. A maioria das citações de cunho emotivo parecem partir de santos que por toda a vida tomaram o cuidado de ser puros de coração e sinceros com os que os cercam, mas sendo vítimas da maldade e falta de consideração destes.
Ninguém jogou a pedra, todos foram apedrejados.
Ninguém jogou a pedra, todos foram apedrejados.
Particularmente, quando o assunto são relações pessoais, eu gosto de uma sinceridade completa. Refiro-me aqui à honestidade no que é dito, não à necessidade infantil de dizer tudo o que se pensa. Ao longo da vida tenho me cercado de pessoas diretas em suas palavras, que priorizam a transparência acima da "preocupação com os sentimentos" alheios. Alguns podem considerar esta postura como insensível às fragilidades dos outros. E talvez ela realmente seja. Mas nestas pessoas às quais me refiro, observei também a capacidade de receber um tratamento idêntico - por isso mesmo convivo muito bem com elas. Sendo direto e transparente no que digo, forneço também aos que me cercam o direito de agirem assim ao lidar comigo, aceitando as consequências positivas e negativas disso.
O problema é que normalmente esta via não é de mão dupla. Vemos bonitos discursos sobre a sinceridade caminhando lado a lado com um ressentimento velado a respeito da sinceridade alheia.
Como resolver, então, o paradoxo de uma "sinceridade vitimista"?
Bem, podem existir mil propostas, mas uma me parece muito prática e efetiva: quebrar o mito de que a sinceridade é um algodão fofinho com cheiro de rosas que deixa a pele bonita e faz bem pro coração. Não, nem de longe. Sinceridade é uma pedra lascada, capaz de causar feridas profundas se lançada em pessoas incapazes de lidar com ela.
Sobra a escolha entre usar com moderação ou usar indiscriminadamente e lidar com o fato de que poucas pessoas gostarão de conviver com alguém que age assim. E principalmente, visando a coerência, fornecer aos outros o direito de fazer também esta escolha. Não falo aqui em termos de "melhor postura", visto que não enxergo a vida em preto e branco; preocupo-me apenas em ressaltar a coerência.
Sobra a escolha entre usar com moderação ou usar indiscriminadamente e lidar com o fato de que poucas pessoas gostarão de conviver com alguém que age assim. E principalmente, visando a coerência, fornecer aos outros o direito de fazer também esta escolha. Não falo aqui em termos de "melhor postura", visto que não enxergo a vida em preto e branco; preocupo-me apenas em ressaltar a coerência.
A coerência nos demonstra que uma sinceridade vitimista é hipócrita.
Davi, concordo com a honestidade do que é dito, mas devo admitir que reservo essa honestidade total apenas a quem considero de alguma forma. Omissões ocorrem bastante (faz parte da "politicagem" do viver bem em comunidade) e quanto a solução apresentada e suas consequências seguem bem o q vc escreveu "Sinceridade é uma pedra lascada, capaz de causar feridas profundas se lançada em pessoas incapazes de lidar com ela."
ResponderExcluirMas devemos tentar aprender a lidar com a mesma e ajudar quem não o sabe a lidar com ela, pois tudo fica melhor quando as coisas são claras, afinal as pessoas podem mudar de opiniões e maneiras de agir, não há nada de errado nisso - o importante é que tudo seja em "pratos limpos" por assim dizer, hehehehehe
Bom texto, tava com saudade!
beijos
Olá Mariana!
ExcluirFeito você, tendo a entregar minha sinceridade pros mais próximos e minha distância pros mais distantes. Em geral não me entendo muito bem com quem não lida bem com a transparência, aí me sobra a "politicagem" mesmo (ou a antipatia alheia, em muitos casos).
Valeu pela força e obrigado pelo comentário!