Odeio o imediatismo da nossa época. Em qualquer aspecto. Sou completamente deslocado socialmente neste sentido. Não me dou bem com a regra social de atender telefone ou celular sempre que eles tocam, de responder mensagens no exato momento do recebimento, de dar uma resposta pontual rápida a toda pergunta feita a mim, de ter que me posicionar a respeito de toda notícia no exato instante de seu acontecimento... entre outras mil coisas.
Nossa era da informação traz em si a marcante característica da rapidez dos meios de comunicação. Não precisamos esperar o jornal impresso do dia seguinte para saber o que está acontecendo ao redor do país. Não precisamos esperar dias para saber de acontecimentos internacionais. Fatos são facilmente noticiados minutos após sua ocorrência.
Aliás, atualmente, fatos são noticiados mesmo antes de ocorrerem. Quem nunca leu um "partiu academia" numa rede social, ou uma foto da refeição ainda a ser feita? Podem ser fatos irrelevantes para a maioria das pessoas - como são, para mim, a maioria
dos fatos noticiados em qualquer jornal, site ou revista. Mas, ainda assim, fatos. E quem sou eu para dizer que notícia é relevante para quem, se questões interessantíssas para mim podem ser absolutamente sem importância para outros?
Ao acelerarmos os meios de comunicação, aumentamos também o fluxo de informações transmitidas e recebidas. Ok, só falei de coisas óbvias até então.
A questão é que com o aumento do fluxo de informações, observamos em nossa sociedade uma imensa propensão ao imediatismo (ou só um aumento dessa). Se agora posso enviar uma mensagem instantânea, a pessoa que recebe a mensagem também pode me responder instantamente. Se um jornalista pode publicar uma notícia imediatamente, também posso formar e publicar imediatamente minha opinião a respeito. Passamos então a ter opiniões imediatas com a ilusão de que estas já estavam formadas em nosso intelecto há tempos e tempos pelo simples fato de conseguirmos captar e interligar um número imenso de informações em questão de segundos - ainda que sem escrutínio ponderado e criterioso. Acreditamos piamente em nossa capacidade de conhecer bem a respeito de algo sem dedicar nenhum trabalho a este conhecimento.
Nas redes sociais vemos comentários completamente estereotipados a respeito de tudo que se possa noticiar. Último rebuliço? Rolezinho. Todo mundo tem algo a dizer, mas não me parece que todo mundo dedicou algum tempo a estudar a situação. Neste exemplo específico, a quê me refiro quando falo sobre "estudar a situação"? É muito simples. Vou tentar pobremente simular aqui uma possível investigação a respeito do tema:
1. O "rolezinho", imagino eu, pode ser enxergado como um fenômeno social. Preciso recolher então informações fidedignas capazes de me dizer as características do evento até ter certa segurança a respeito do que realmente ocorreu. Para isso, não bastará ver portais de notícia relatando o ocorrido, será necessário buscar relatos dos lojistas, de testemunhas presentes no evento, de participantes do mesmo e, se possível, ver filmagens da data referida - entre outros possíveis levantamentos (lembremo-nos que isto é apenas um ensaio pobre e despretensioso). Colhidas todas essas informações, precisarei compará-las e traçar um perfil do evento que seja o mais coerente possível com todos os relatos. Terei que distinguir anedotas de fatos, relatos meramente imaginativos de relatos fiéis.
2. Tendo então analisado os dados a respeito dos fatos, tenho agora evidências para analisar. O evento foi pacífico? Quem eram os organizadores? Houve casos de crime no dia do evento? Se sim, foram praticados por participantes do evento? Os números são relevantes o suficiente para dizer que o evento é responsável? Os participantes demonstraram preocupação em manter o evento pacífico? Estas e outras perguntas me fornecerão números e fatos ponderados.
3. Agora que tenho fatos e números ponderados, passo a analisar se as causas e consequências analisadas necessitam ou não de alguma intervenção. Em caso positivo, quem é competente para esta intervenção? Quais os limites legais desta intervenção? Em caso negativo, qual a razão real de alguns estabelecimentos estarem intervindo? Até que ponto temos uma preocupação justificada e a partir de onde passamos a um segregacionismo? Para buscar uma resposta a estas perguntas, precisarei ler outros pontos de vista sobre temas relacionados, de preferência autores que já traçaram investigações a respeito de temas relacionados na área da sociologia, filosofia, direito, etc., ou no mínimo dialogar com pessoas que já tiveram a oportunidade de fazer isso.
1. O "rolezinho", imagino eu, pode ser enxergado como um fenômeno social. Preciso recolher então informações fidedignas capazes de me dizer as características do evento até ter certa segurança a respeito do que realmente ocorreu. Para isso, não bastará ver portais de notícia relatando o ocorrido, será necessário buscar relatos dos lojistas, de testemunhas presentes no evento, de participantes do mesmo e, se possível, ver filmagens da data referida - entre outros possíveis levantamentos (lembremo-nos que isto é apenas um ensaio pobre e despretensioso). Colhidas todas essas informações, precisarei compará-las e traçar um perfil do evento que seja o mais coerente possível com todos os relatos. Terei que distinguir anedotas de fatos, relatos meramente imaginativos de relatos fiéis.
2. Tendo então analisado os dados a respeito dos fatos, tenho agora evidências para analisar. O evento foi pacífico? Quem eram os organizadores? Houve casos de crime no dia do evento? Se sim, foram praticados por participantes do evento? Os números são relevantes o suficiente para dizer que o evento é responsável? Os participantes demonstraram preocupação em manter o evento pacífico? Estas e outras perguntas me fornecerão números e fatos ponderados.
3. Agora que tenho fatos e números ponderados, passo a analisar se as causas e consequências analisadas necessitam ou não de alguma intervenção. Em caso positivo, quem é competente para esta intervenção? Quais os limites legais desta intervenção? Em caso negativo, qual a razão real de alguns estabelecimentos estarem intervindo? Até que ponto temos uma preocupação justificada e a partir de onde passamos a um segregacionismo? Para buscar uma resposta a estas perguntas, precisarei ler outros pontos de vista sobre temas relacionados, de preferência autores que já traçaram investigações a respeito de temas relacionados na área da sociologia, filosofia, direito, etc., ou no mínimo dialogar com pessoas que já tiveram a oportunidade de fazer isso.
Se quiséssemos realmente compreender o fato e emitir opiniões relevantes, com caráter de seriedade, talvez até com a intenção de provocarmos mudanças concretas em nossa sociedade, precisaríamos seguir ainda muito adiante nesta investigação, ao invés de simplesmente determinar mentalmente se o que vemos é preconceito ou precaução. E o que isto exigiria? Tempo. Tempo significa horas, dias de leituras, pesquisas e trabalho. Em caso de estudos específicos aprofundados, meses e anos. Investigações como esta gastam tempo - acredito que qualquer pesquisador concorda comigo neste ponto.
Mas, em geral, as pessoas não se dão tempo. Tenho que dar minha opinião enquanto a notícia está "fresca". Preciso agora mesmo saber tudo a respeito de qualquer coisa que me pareça ligeiramente interessante e informar isso a todos.
Isso ainda se estende. Preciso de respostas imediatamente após perguntar. Preciso informar a todo mundo no Facebook sobre o tombo que levei na rua há dois minutos, sobre a festa que estou curtindo neste exato momento, sobre o presente que recebi da namorada, sobre meus sentimentos por alguém que há dez minutos eu soube que faleceu. É importante então noticiar tudo e o mais rápido possível. Passamos então a exigir de nós mesmos rapidez para tratar de qualquer assunto e a esperar dos outros a mesma eficiência.
Só que nós não temos essa eficiência. Somos falhos. Podemos errar em nossas deduções, nos equivocar em nossas análises, acreditar em fontes não-confiáveis. E tendemos acreditar que estamos certos - ora, todas as minhas ações serão baseadas em minhas visões, então nada mais justo que confiar algum crédito às minhas certezas.
Essa crença aliada àquela ineficiência pode nos levar a opiniões e ações completamente equivocadas, que certamente gerarão consequências das quais não poderemos fugir. Por essas e outras tendo a me deslocar socialmente neste aspecto.
Precisamos carregar o celular conosco e atendê-lo sempre? Temos em nós esta capacidade de estar sempre à disposição ou apenas criamos este hábito e deixamos de perceber que poderíamos ter maior qualidade na vida, nas relações e nas obrigações se nos permitíssemos um pouco mais de indisposição imediata aos outros? É realmente necessário e saudável formularmos apressadamente uma opinião a respeito de qualquer assunto? Não estaria nossa pressa afetando nossa paciência e consequentemente outros aspectos relevantes de nossa vida e sociedade? Não estaria nosso imediatismo minando nossa capacidade de resolver verdadeiros problemas sociais e até pessoais?
Ler este texto gastou seu tempo e pensar estas e outras questões gastaria muito mais. Se dispender este tempo vale ou não a pena, cada um decide por si. Eu, há algum tempo, decidi que o imediatismo, na maioria dos casos, não é um bom companheiro na hora de fundamentar minhas escolhas e opiniões.
Se a sociedade exige pressa, a vida exige tempo.
Oi, também penso assim. Este meu texto meio que complementa o seu. Dê uma olhada no vídeo linkado, acho que vai gostar. Um abraço.
ResponderExcluirhttp://www.seraphicetica.blogspot.com.br/2014/07/do-we-really-need-it.html?m=1
Tati! Peço desculpas pela demora em responder. Fiquei muito tempo sem entrar aqui.
ExcluirLerei seu texto e comentarei por lá.
Grande abraço!
Eu li :x
ResponderExcluirhahahah Obrigado pela visita!
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