terça-feira, 7 de abril de 2015

"Almoçando Com Um Padre" ou "Quando Ideias Merecem Respeito"


Compartilho aqui com vocês de minha experiência de Páscoa.

Fui à casa de meus pais no feriado prolongado. Em nosso almoço esteve presente um padre, amigo da família, convidado por meus pais.

Antes da refeição, o padre conduziu uma oração. Sabendo a família e o padre que ao menos duas pessoas ali presentes abertamente não compartilham da mesma crença – uma delas, eu –, não houve nenhuma menção ao fato. Nenhuma tentativa de confronto, nenhuma palavra de ordem, nenhuma condenação aos possuidores de ideias divergentes.

Apenas uma bonita oração sobre o amor, a importância de, em outros momentos de nossas vidas, nos lembrarmos de solidarizar com aqueles que não possuem alimento e o desejo de um mundo melhor. Intenções nas quais eu posso discordar em alguns pontos do modus operandi, mas que compartilho do desejo e dos objetivos. Nas palavras usadas para transmitir essas intenções, falou-se de Jesus e outros elementos da crença católica, mas qualquer um que escute com um pouco mais que apenas os ouvidos saberia entender o significado das preces.

Ao fim da breve oração, os que acreditam rezaram juntos um Pai Nosso, os que não
acreditam ficaram em silêncio em respeito à inofensiva prática dos que acreditam. Um sinal da cruz e fomos para nossa refeição sem mais delongas.

Não queimei. Não tive minha honra ferida. Não fiquei menos ateu. A comida não ficou com gosto ruim. Não me senti atacado, excluído ou inferiorizado. Pelo contrário, me senti feliz por saber que minha família não se envergonha de praticar sua crença diante de mim, nem se sente desconfortável em viver o que acredita em minha presença. Assim como também não me senti envergonhado em ficar em silêncio, nem constrangido por eles a participar de um ato motivado por uma crença da qual não compartilho. Fiquei feliz por saber que podemos ser nós mesmos na presença uns dos outros, sem precisar dos melindres sociais que vestimos diariamente em nossos trabalhos, faculdades e outros ambientes sociais.
À esquerda, Papa Francisco, principal líder católico da atualidade. À direita, Richard Dawkins, cientista renomado e ateu influente.
Tenho cada dia mais boas razões para pensar que o mantra “pessoas merecem respeito, ideias não” é repetido, na maioria das vezes, não em seu sentido originário, que preza pela importante postura de sempre questionar ideias vigentes, e sim em nome de uma auto-promoção que surge quando um diferente cria uma situação constrangedora apenas “porque sim”. O sentimento de “ser um renegado” parece alimentar o ego de muitos que poderiam pacificamente respeitar a crença ou posição ideológica alheia em determinados momentos sem nenhum dano.

Há bons momentos para se questionar ideias vigentes e repensar posições políticas, religiosas, filosóficas, científicas, etc., mas há também bons momentos para se fazer uma pacífica e divertida refeição com família e amigos sem precisar adentrar em nada disso. Na sexta eu poderia ter postado a foto da carne que comi no almoço e no domingo postar que Jesus nunca existiu, mas preferi na sexta adiantar meus compromissos para poder passar o domingo com minha família. Assim como o padre ou algum membro de minha família poderia ter escolhido tentar nos evangelizar, falar sobre a condenação reservada aos infiéis ou tentar nos obrigar a rezar junto, mas, ao invés disso, escolheram praticar sua crença de forma sincera e sem segundas intenções.

E, graças a essas escolhas, assim foi nosso almoço de Páscoa: uma tarde agradável que compartilhei com meus pais, irmãos, sobrinhas, cunhados e um amigo da família.

O mundo já está repleto de ideólogos ferrenhos e obstinados. Não há melhor hora para que saiam do armário aqueles que expõe suas ideias sem desaprender a conviver com as diferenças.

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