Fiquei quieto sobre o tema esse tempo todo porque, assim como a maioria das pessoas (incluindo a maioria das que se manifestaram a respeito), eu não tenho conhecimento suficiente sobre o assunto. Mas quero fazer só um (não tão) breve comentário.
O caso de Mariana é uma catástrofe, uma tragédia, uma mancha na história humana. Todos concordamos com isso e não vou ficar aqui repetindo palavras de catarse que na prática não servem pra nada. Meu ponto é outro.
Acima de tudo, esse caso é criminosamente negligente e diz muito a respeito da forma brasileira de lidar com problemas: ignorar e ocultar até que seja impossível esconder, e se lamentar depois que a merda foi jogada no ventilador. No Brasil, governa-se a curto prazo, porque é só o que é olhado pelos eleitores. Assim, situações como essa não são UM mero acidente para se lamentar: tem mais pra acontecer. Sim, tem mais. E não me refiro às consequências desse rompimento das barragens, cujo impacto ambiental gigantesco vai ser estudado agora por um grupo independente de pesquisadores de diversas áreas. Refiro-me a problemas futuros.
As barragens de Mariana são apenas um caso, que eu desconhecia e creio que a maioria dos brasileiros também. Por mais bem informado que você seja, não dá pra você ir em todos os cantos do
Brasil pra descobrir onde tem algo de errado acontecendo. Só ficamos sabendo desse caso porque a lama varreu cidades; não fosse por isso, talvez o caso continuasse escondido. E não foi inesperado, uma represa não rompe de repente, do nada. A física aplicável ao caso não se comporta desse jeito. Certamente o problema era previsto (e, se não era, o absurdo é ainda maior).
Há casos que eu conheço que também são apenas uma questão de tempo, como por exemplo o problema do desenvolvimento não-sustentável da Cantareira (que o Pirula já expôs de forma clara e concisa em vários vídeos). Há o problema do desmatamento da Amazônia, que já é quase um termo comum no nosso vocabulário - mesmo quem não faz ideia do que é, sabe usar o termo "desmatamento da Amazônia", quase um patrimônio linguístico brasileiro, que perdeu o peso que deveria ter. Várias universidades brasileiras (incluindo a que eu estudo) estão com ameaça de parar de funcionar em alguns meses novamente porque não terão dinheiro para pagar as contas (luz, água, telefone, etc.).
Isso são casos que eu conheço; eu, UMA pessoa, que se informa pouco a respeito de política (ao menos pro que eu considero suficiente). Imagine agora quantos casos muito mais graves, análogos a esse de Mariana, estão espalhados pelo Brasil e que só pessoas da cidade tem como saber.
TODOS eles, sem exceção, catástrofes com data marcada pra acontecer. E todos eles (ou ao menos, a maioria) evitáveis com uma prevenção correta e uma política responsável.
A falta de água em São Paulo e no resto do Brasil não é uma surpresa, não é como se nossos governantes tivessem sido informados ontem por SMS que a represa estava abaixando. É um problema anunciado há décadas em relatórios de pesquisadores; relatórios esses que foram engavetados. Assim como os que tratam do desmatamento, os que informam que casas de show não tem condições de suportar a quantidade de pessoas que anunciam, os que mostram locais de possível deslizamento e muitos outros; relatórios que ou são engavetados porque o brasileiro está pouco se lixando pra opinião de cientistas, ou que são rasgados porque alguém escorregou um suborno na mão de outro alguém, ou por inúmeras outras razões que podemos só especular.
Aí acontece uma tragédia em uma casa de show - "reze pelas famílias". Acontecem alagamentos - "reze pelas famílias". Acontecem deslizamentos, incêndios, rompimentos de barragens, falta de água etc. etc. etc. - "reze pelas famílias".
E assim vamos tratando a irresponsabilidade nossa e dos outros como meros acidentes, inesperados infortúnios, quando, de fato, eram problemas muito previsíveis e de prevenção completamente possível, ainda que trabalhosa; e vamos "rezando pelas famílias" quando, se tivéssemos ao menos um pingo de decência e comportamento cidadão responsável, essas famílias poderiam estar felizes e tranquilas em suas casas.
É a velha história, todo mundo quer um mundo melhor mas ninguém quer lavar o prato. Só que essa frase não é sobre sua cozinha e um prato sujo vai ser o menor dos nossos problemas nos próximos anos.
Seja um cidadão responsável pelas famílias. Denuncie os casos de corrupção da sua cidade pelas famílias. Vigie os políticos que você elegeu e as empresas da sua cidade, denuncie os absurdos dos quais tem conhecimento, seja honesto em seu trabalho, tenha consciência de que suas ações, honestas ou desonestas, tem peso na sociedade: tudo isso pelas famílias.
Aí sim, depois disso tudo, se sua crença exigir, reze pelas famílias. Porque, sem todos esses cuidados anteriores, suas orações são apenas parte de um ciclo infindável de negligências, tragédias e orações.
Acima de tudo, esse caso é criminosamente negligente e diz muito a respeito da forma brasileira de lidar com problemas: ignorar e ocultar até que seja impossível esconder, e se lamentar depois que a merda foi jogada no ventilador. No Brasil, governa-se a curto prazo, porque é só o que é olhado pelos eleitores. Assim, situações como essa não são UM mero acidente para se lamentar: tem mais pra acontecer. Sim, tem mais. E não me refiro às consequências desse rompimento das barragens, cujo impacto ambiental gigantesco vai ser estudado agora por um grupo independente de pesquisadores de diversas áreas. Refiro-me a problemas futuros.
As barragens de Mariana são apenas um caso, que eu desconhecia e creio que a maioria dos brasileiros também. Por mais bem informado que você seja, não dá pra você ir em todos os cantos do
Brasil pra descobrir onde tem algo de errado acontecendo. Só ficamos sabendo desse caso porque a lama varreu cidades; não fosse por isso, talvez o caso continuasse escondido. E não foi inesperado, uma represa não rompe de repente, do nada. A física aplicável ao caso não se comporta desse jeito. Certamente o problema era previsto (e, se não era, o absurdo é ainda maior).
Há casos que eu conheço que também são apenas uma questão de tempo, como por exemplo o problema do desenvolvimento não-sustentável da Cantareira (que o Pirula já expôs de forma clara e concisa em vários vídeos). Há o problema do desmatamento da Amazônia, que já é quase um termo comum no nosso vocabulário - mesmo quem não faz ideia do que é, sabe usar o termo "desmatamento da Amazônia", quase um patrimônio linguístico brasileiro, que perdeu o peso que deveria ter. Várias universidades brasileiras (incluindo a que eu estudo) estão com ameaça de parar de funcionar em alguns meses novamente porque não terão dinheiro para pagar as contas (luz, água, telefone, etc.).
Isso são casos que eu conheço; eu, UMA pessoa, que se informa pouco a respeito de política (ao menos pro que eu considero suficiente). Imagine agora quantos casos muito mais graves, análogos a esse de Mariana, estão espalhados pelo Brasil e que só pessoas da cidade tem como saber.
TODOS eles, sem exceção, catástrofes com data marcada pra acontecer. E todos eles (ou ao menos, a maioria) evitáveis com uma prevenção correta e uma política responsável.
A falta de água em São Paulo e no resto do Brasil não é uma surpresa, não é como se nossos governantes tivessem sido informados ontem por SMS que a represa estava abaixando. É um problema anunciado há décadas em relatórios de pesquisadores; relatórios esses que foram engavetados. Assim como os que tratam do desmatamento, os que informam que casas de show não tem condições de suportar a quantidade de pessoas que anunciam, os que mostram locais de possível deslizamento e muitos outros; relatórios que ou são engavetados porque o brasileiro está pouco se lixando pra opinião de cientistas, ou que são rasgados porque alguém escorregou um suborno na mão de outro alguém, ou por inúmeras outras razões que podemos só especular.
Aí acontece uma tragédia em uma casa de show - "reze pelas famílias". Acontecem alagamentos - "reze pelas famílias". Acontecem deslizamentos, incêndios, rompimentos de barragens, falta de água etc. etc. etc. - "reze pelas famílias".
E assim vamos tratando a irresponsabilidade nossa e dos outros como meros acidentes, inesperados infortúnios, quando, de fato, eram problemas muito previsíveis e de prevenção completamente possível, ainda que trabalhosa; e vamos "rezando pelas famílias" quando, se tivéssemos ao menos um pingo de decência e comportamento cidadão responsável, essas famílias poderiam estar felizes e tranquilas em suas casas.
É a velha história, todo mundo quer um mundo melhor mas ninguém quer lavar o prato. Só que essa frase não é sobre sua cozinha e um prato sujo vai ser o menor dos nossos problemas nos próximos anos.
Seja um cidadão responsável pelas famílias. Denuncie os casos de corrupção da sua cidade pelas famílias. Vigie os políticos que você elegeu e as empresas da sua cidade, denuncie os absurdos dos quais tem conhecimento, seja honesto em seu trabalho, tenha consciência de que suas ações, honestas ou desonestas, tem peso na sociedade: tudo isso pelas famílias.
Aí sim, depois disso tudo, se sua crença exigir, reze pelas famílias. Porque, sem todos esses cuidados anteriores, suas orações são apenas parte de um ciclo infindável de negligências, tragédias e orações.

Ótimo texto.
ResponderExcluirInfelizmente esse imediatismo extremo em que vivemos, faz com que muitas pessoas tenham falado muito sobre o tema, mesmo sem saber o que estavam dizendo e sem a menor reflexão, e faz também com que hoje ninguém ache mais importante pensar no assunto.