“Só existe um problema filosófico
realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é
responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três
dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de
jogos; é preciso primeiro responder.” (CAMUS, Albert. Um raciocínio absurdo.
in: O Mito de Sísifo)
O absurdo. O tema central da obra
“O Mito de Sísifo”, de Camus, é o absurdo. E em quê consiste esse absurdo
tratado pelo autor?
Pra que se assimile e se aproxime
da ideia que esse gênio francês quis transmitir por “absurdo”, o máximo que
posso fazer é recomendar a leitura do livro completo, e depois também do livro
“O Estrangeiro”, onde ele traça um romance que figura como uma obra de arte
representativa dessa ideia.
Mas para o propósito colocado
aqui neste blog, posso me dar ao luxo de criar um resumo pobre e despretensioso
dessa ideia. Isso porque este não será um espaço de estudo das obras de Camus ou
um site sobre existencialismo, nem qualquer outra coisa além de um blog pessoal.
Será apenas um espaço onde lançarei minhas ideias e divagações.
"Um
símbolo é sempre genérico e, por mais precisa que seja sua tradução, um artista
só lhe pode restituir o movimento: não há tradução literal. De resto, nada é
mais difícil de entender do que uma obra simbólica. Um símbolo sempre
ultrapassa aquele que o usa e o faz dizer na realidade muito mais do que tem
consciência de expressar." *
O nome “Sísifo e o Absurdo” se
remete ao símbolo escolhido pelo próprio ensaísta na exposição de sua ideia.
O mito de Sísifo (de forma muito
resumida) narra a história de um homem que, seguindo suas paixões, vai aos
infernos, retorna à vida com a ajuda dos deuses sob a condição de voltar logo à
morte e se recusa a voltar; é, então, condenado a rolar eternamente até o cume
de uma montanha uma pedra que sempre retornará ao chão.
Neste blog, deixarei publicados
os pensamentos do caminho que realmente interessa a Camus: o momento em que
Sísifo contempla a pedra despencando novamente até o ponto onde ele terá que
retornar, para tornar a subi-la até os picos.
Esse é o momento em que ele
retoma a consciência de que seu esforço sempre será em vão. Esse é o caminho
que marca sua superioridade. O herói do absurdo não traz consigo a esperança de
um dia levar essa pedra a um lugar em que ela seja útil, e sabe que seu esforço
não terá fim.
Sua “vitória” reside na vivência
consciente de sua saga infrutífera.
O homem mecânico é incapaz de
compreender a vivência do homem absurdo, e provavelmente o será até o ponto em
que sua consciência se refreie no intervalo entre uma tarefa e outra.
Mas isto não é um problema, visto
que não é essa a proposta do absurdo. Entendam, não entendam, compartilhem da
vivência, critiquem; tudo isso são “jogos”. O que importa é manter vivo este
divórcio com o mundo.
Então, por ora, serei simplista.
O “absurdo”, como tratado por Camus, se dá na coexistência homem/mundo. O
absurdo não consiste no fato de haver o homem com seus impulsos e desejos;
também não se dá apenas pela existência de uma realidade externa ao homem,
independente de suas visões e buscas íntimas.
O absurdo aparece no momento em
que o homem existe no mundo. O absurdo
aparece na total ausência de sentido último ou razão objetiva da existência, no
mundo, de um ser que questiona, rotula, pensa, ama, racionaliza e tenta
familiarizar-se com ele; e, malgrado todos estes caprichos, terá sua existência
terminada em um curto espaço de tempo.
O “problema filosófico” do
suicídio, apontado pelo filósofo, não consiste em pensar moralmente sobre a
renúncia à própria vida – fato recorrente quando se fala dessa questão;
consiste na reflexão pessoal sobre essa vida valer ou não a pena ser vivida. E quando
uso o termo “essa vida”, não confundamos com “a vida humana”. Refiro-me à vida pensada
individualmente, olhada por aquele que a vive, e não ao sentido generalizado,
como em “a vida das pessoas”. A existência pode ser pensada apenas por aquele
que existe e para aquele que existe; e é disso que Camus trata.
O escritor francês não faz nessa
obra um elogio à morte, e tampouco à vida; se esforça por mostrar-nos as
características do que ele chama de “o homem absurdo”.
O homem que trabalha
constantemente com “o absurdo” proposto; que lida com a vida carregando consigo
o constante divórcio entre si mesmo e o mundo; alguém que não traz esperanças
em relação a essa existência – o que nada tem a ver com desespero –, que
continuamente se recusa a atribuir de forma arbitrária qualquer sentido às
coisas e que conscientemente se mantém insatisfeito nessa jornada, pois sabe
que o absurdo é um problema que não deve ser resolvido. Pelo contrário!
Extinguir ou tentar resolver o absurdo seria cometer o suicídio filosófico e
talvez se entregar à mecanicidade proposta pela sociedade.
Não, este absurdo não é um problema a ser resolvido: é um problema a ser cultivado. E este blog vem ser parte do meu cultivo do absurdo.
E este blog será, então, um lugar
onde deixarei as marcas dessa vivência absurda. Será o espaço onde compartilharei
as divagações da descida rumo à pedra.
“Deixo Sísifo
na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina
a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que
está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem
fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de
noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para
encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” **
“Deixo Sísifo
na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina
a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que
está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem
fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de
noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para
encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” **____________________
* CAMUS, Albert. A esperança e o
absurdo na obra de Franz Kafka. In: O
mito de Sísifo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p.127.
** CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: BestBolso,
2010, p.124.
Agradeço ao amigo Miguel Angelo Caruzo (blog Alétheia) por me ajudar a escolher o nome.
Estréia Triunfal!
ResponderExcluirEstarei sem dúvida alguma acompanhando os posts!
Feliz pelo privilégio de ter acesso a um escrita tão peculiar.
Muito obrigado, Marry!
ResponderExcluirFico feliz com sua visita.
Sinta-se sempre à vontade pra enriquecer o blog com sua opinião e visão de mundo.
Abraços.