Criticar o feminismo, contrapor
religiões, discordar das cotas racistas... digo, raciais, defender a
legalização do uso de drogas, questionar a monogamia, etc. etc. etc. nos
tornará sempre, aos olhos dos defensores de alguma ideologia, num monstro a ser
calado/punido (em vista de calar outros futuramente). Na internet, por exemplo,
é muito comum encontrar comentários do tipo "vamos denunciar!", que
nada mais são do que um inconsciente "vamos censurar antes que pessoas
ordinárias, que não compartilham de todo o meu vasto senso crítico, vejam isso!". É uma constante luta pela censura de ideias divergentes, partindo
de todos os lados.
Aqui entra a velha desculpa sobre
punição posterior ser diferente de censura prévia, ou a prepotência coletiva de
“o povo não está preparado pra ouvir algumas coisas”. Claro, porque “o povo”
(esse ente indeterminado e flutuante, sem personalidade e sem inteligência)
certamente não tem todo o esclarecimento e estudo dos possuidores de opiniões
idênticas à sua.
Ora, qualquer “amante” de uma
ideologia que julgue ter encontrado um manual com a melhor forma de defender o
bem estar do ser humano – ou, como quase sempre, apenas de grupos específicos
–, sempre vai taxar de ignorante quem discorde abertamente de si. Um
dissidente, então, será sempre tratado como um Lúcifer dos grandes ideais
"abc"istas.
Não consigo compreender essa
noção simplista de ver uma ideologia como resposta pra todas as divergências do
mundo. Vejo ativistas falarem insistentemente que não lutam por privilégios,
mas por igualdades. Lamento, mas não vejo isso. Em casos escusos até acontece,
como a luta do movimento LGBTS pela legalização da união civil homossexual, que
é a genuína e necessária busca por um direito já possuído por outros. Porém, na
maioria das vezes ideologias têm resultado em fanatismo, fechando o seguidor do
manual “abc”ista à possibilidade de ser contrariado, resultando no que mais me
incomoda: a luta pela efetiva polícia das ideias.
Defensores de grupos e ideais
surgem da indignação em relação a situações concretas. Na maioria das vezes, a
luta é genuína e necessária, e os movimentos conseguem mudanças significativas.
Basta olhar a história pra vermos inúmeras conquistas humanitárias e nobres,
que certamente não teriam sido alcançadas sem o ativismo de alguns – movimentos
negros, feministas, indígenas, estudantis, partidários, etc..
O problema começa quando esses
grupos param de lutar contra situações concretas de preconceito e violência e
passam a querer definir o que as pessoas devem ou não querer, falar e pensar. E
isso quase sempre acontece. Ao menos até este ponto da história, tem sido uma
regra. Surgem grandes personalidades na luta por direitos iguais e de repente a
luta, inicialmente focada nas consequências práticas das relações, começa a ser
desviada para o campo sentimental e ideológico. Perde-se o foco da defesa do
ser humano e passa-se à defesa do ideário. Não se busca mais tornar as relações
civis mais igualitárias; agora se busca definir como as pessoas devem pensar
e que ideias podem trocar, com o que podem concordar e discordar, e do que
devem ou não gostar. Policiam-se as piadas, as conversas, as expressões e cada
vírgula, em prol da defesa de um ideário considerado como sagrado. Isso fica
evidente no Brasil nas situações onde um humorista é obrigado a filtrar seu
repertório para não correr o risco de ser punido por piadas “ofensivas”.
Alguns grupos ideológicos e de
minorias apelam pra um “coitadismo” extremo, tomando o ser humano possuidor de
alguma característica específica como uma criança frágil, lutando por decidir o
que ele pode ou não escutar e como todas as pessoas devem tratá-lo. Os
movimentos que deveriam lutar pela igualdade de direitos passam a lutar para que
algumas pessoas sejam tratadas como “especiais”, quase incapazes, pela cultura
vivida pela sociedade no passado. Ao invés de ajudar as pessoas nas situações
práticas de discriminação, violência e prejuízo de direitos – situações essas
que existem e deveriam ser sempre o foco de todo movimento humanista –, travam
uma luta imaginária contra o pensamento que repudiam, concedendo a este quase o
status de um Ser (e na maioria das vezes sequer se preocupam em checar se
entenderam bem o que ouviram/leram). Resumindo: ao invés de lutar por uma
sociedade onde todos tenham direitos iguais, lutam pra manter um espírito de
recalque – por um passado do qual não participamos e não temos culpa –, e
reivindicam o direito de regular como as pessoas devem se tratar, sobre o que podem
conversar, quais opiniões devem ter e com o que podem ou não fazer piada.
Pra quê liberdade de expressão,
se já temos tantos zelosos paladinos da ortodoxia e da boa vontade, dispostos a
criar pra nós (pra nós?) uma sociedade ideal? Não nos tocamos ainda que
ideologias e utopias – a serem concretizadas sobre as pessoas, vividas pelas
pessoas, como um parasita que só existe por haver um hospedeiro – são mais
importantes do que a mínima liberdade de formar e expressar as próprias
opiniões? Não percebemos que há opiniões naturalmente superiores (as nossas!)?
É uma ilusão imatura lutar por um
mundo onde as pessoas nunca se sintam ofendidas e magoadas. Prezar pela
“dignidade” dos indivíduos implica obrigatoriamente prezar pela liberdade individual
de escolha sobre a própria vida e as próprias relações e opiniões. E vou além:
é prezar também pelo nosso direito de ofender e de ser ofendido, exemplificado
muito bem nesta entrevista de Philip Pullman, sobre o título de seu livro “The Good Man Jesus and the Scoundrel
Christ” (Jesus, o Bom Homem e Cristo, o Canalha):
Pra não ser mal compreendido, reforço:
existem situações práticas de discriminação, onde pessoas sofrem violência,
perdem empregos, têm seus direitos tomados e outros tipos de agressão concreta,
que atingem diretamente suas vidas, por motivo de preconceito, e é contra estas
situações que devemos lutar. Porém, quando o assunto são palavras, ideias e
piadas, as pessoas devem ser tratadas como adultas, responsáveis pelos próprios
sentimentos, opiniões, relações e traumas.
A mudança de uma cultura não se
faz à base da força, e sim através de ideias. Não se combate uma ideia
criminalizando os que concordam com ela, e sim a refutando. Uma sociedade
sempre vai abraçar naturalmente como boas/aceitáveis e ruins/inaceitáveis as
ideias com as quais se identifica. E esse senso comum será considerado o “bom
senso”; não por ser o “melhor” (noção infantil), mas por ser culturalmente vivido.
Como disse anteriormente, a noção
de que nossas ideias são superiores e que “as pessoas” não partilham de todo o
nosso senso crítico é uma prepotência coletiva e presunçosa. Qualquer pessoa
que já mudou de opinião ao menos uma vez na vida deveria imaginar não ser isto
um privilégio de seu intelecto, mas uma característica inerente ao ser humano.
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Resposta do Daniel (D-Dimensoes) ao post - http://ddimensoes.blogspot.com.br/2012/12/resposta-ao-davi-simoes.html
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