sábado, 10 de novembro de 2012

A Moral do Rebanho


O filho se comporta de uma maneira que não agrada? Diga que ele está errado e que será punido se permanecer neste comportamento. Se não há regras, tudo é permitido! E se permitir tudo, como a criança vai saber o que é certo e o que é errado?

Alunos protestaram num colégio? Criemos um inciso no regimento interno que proíba protestos e puna os contraventores. Regras são regras!

Profissionais fazendo greve? Institucionalizemos a greve! Definamos até onde ela é razoável (leia-se “até que ponto ela é inofensiva aos resultados esperados”), e apliquemos sanções àqueles que ultrapassem o limite. Que limite? O limite estabelecido, oras. Este é o certo. Por acaso alguém duvida?

Um comportamento de um cidadão desagrada? Estabeleçamos uma nova lei que torne este ato um crime, e punamos o bandido por infringir uma de nossas sagradas leis! Todos sabem o quanto nossas leis são sagradas, e transgredi-las é pedir pela justa punição. Isto é mais que óbvio.

Afinal de contas, o rebanho nunca questionará uma punição se houver uma regra proibindo o comportamento. Não importa que a regra seja arbitrária, opressiva ou sem o menor sentido: se é proibido, é errado. E se falaram que é errado, por que o rebanho deve questionar?

O rebanho não foi feito pra questionar. Foi feito pra gastar seu tempo adiando a morte. Ovelha serve pra dar lã e leite até o dia de sua morte, onde então servirá de refeição.

Vai gastar a vida providenciando melhores condições de esperar a chegada da morte e pensando em formas de adiá-la. Claro, provavelmente vai sempre ignorar isso. Mas sempre pautará todas suas decisões, planos e ações com este objetivo último.

Afinal, o rebanho é muito bem treinado. Trabalha em condições que não entende – o que obviamente não o incomoda. Recebe o que julgamos ser justo – vai sempre reclamar, mas sem se esquecer de sua condição de rebanho: reclamar com quem está do lado, sem desagradar seu “dono”; sem arriscar perder o certo em nome do duvidoso (como rebanho, ele sabe o quanto isso é crucial!). Não pensa nas regras que segue, e nem se as mesmas tem um objetivo real e razoável. Segue regras porque são regras, e, assim sendo, feitas pra serem seguidas – como já dizia seu pai.

E quem questionará essa educação? Não o rebanho. Afinal, se seu papel é adiar a própria morte, este sistema tem funcionado muito bem.

Portanto, não se esqueça: se seu filho se comporta de uma maneira que não agrada, diga que ele está errado. Afinal, seguir as regras é ter caráter, e ter caráter... é sagrado!

3 comentários:

  1. Me lembrou muito isso Davi:
    "Liberdade é Escravidão: Ignorância é Força". "Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre." (1984, George Orwel)

    Maria fernanda

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    1. E enquanto as pessoas não se fizerem responsáveis pela construção de suas ideias, serão facilmente convencidas de que o lugar de seu rosto é exatamente onde a bota pisa.
      Abraço e obrigado pelo comentário, Fernanda!

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  2. http://www.youtube.com/watch?v=XJ9OmkcWg9E

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