Para um professor, deveria ser
prioritário repassar conhecimento adquirido ou levantar dúvidas? Se cumprisse
apenas um dos dois papéis, qual seria mais relevante?
Observando livros e salas de aula,
veremos a primeira tarefa, em geral, receber maior atenção e dedicação por
parte daqueles que possuem prática e/ou estudo a respeito de algum assunto. Sem
mencionar os casos onde essa é a única preocupação daquele que ensina.
Fazer demonstrações! Ensinar
fórmulas e mostrar de onde vieram! Relembrar fatos e mostrar agravantes!
Calcular fusos, falar de forças, ensinar as regras gramaticais e suas origens,
repassar partituras, aprender técnicas de pintura, blablabla!
Será que repassar conhecimentos –
mesmo demonstrando seus significados e como outros chegaram a estes – é realmente
o mais importante? Nosso conceito de “ensinar” é assim tão pobre a ponto de se
limitar a repassar para as pessoas algo que podem encontrar em um livro bem
escrito? Realmente achamos importante apenas que as pessoas tenham
conhecimentos possuídos por outras há séculos?
Sim, achamos. Talvez não quando
refletimos, porém, no cotidiano, é a grande prioridade.
A palavra “inteligência” não
possui, no consenso geral, sentido de questionamento, de aproveitamento das
próprias capacidades em prol do levantamento e análise de novas questões e
perspectivas, independentemente da área de interesse.
Inteligência se refere quase
sempre à aquisição de perspectivas alheias sobre temas de nosso interesse. Ou,
melhor dizendo, que nos informaram ser obrigatoriamente de nosso interesse
(agradecemos por isso, pois jamais saberíamos se ninguém nos informasse).
Em uma sociedade cujo grande
enfoque em quase todos os âmbitos é utilitarista e mercadológico, obviamente é
muito mais interessante moldar o homem para o trabalho, e não para a reflexão
de novas questões; o homem-engrenagem precisa saber o que gera lucro e é útil à
produção, e alguns precisam saber repassar a outros homens-engrenagens esse
mesmo conhecimento, que vai gerar trabalho e resultados objetivos.
Nossa cultura é tão forte neste
sentido que mesmo a maioria dos estudantes já ingressa numa instituição de
ensino com esse objetivo: aprender o útil e receber dos professores o
conhecimento pronto, a ser utilizado no futuro. Universidades não são vistas,
pela maioria, como local onde terão alimentada sua curiosidade a respeito de
alguma área, onde poderão receber perspectivas anteriores a fim de formular
novas questões e dar vazão à própria criatividade, ou poderão aprofundar suas
pesquisas em áreas de interesse. Geralmente são vistas, infelizmente (do meu
ponto de vista), como locais para “preparar-se para o mercado de trabalho”.
Exatamente por isso os professores
que exigem dos estudantes maior reflexão independente, que os abandonam à sua
autonomia e tentam ultrapassar a barreira do mero repasse de teorias e
demonstrações, são sempre taxados como “carrascos” e maus professores.
Um professor pede pra que eu
tente descobrir – que absurdo, SOZINHO! – soluções pra um problema? Uma pesquisa
sobre assuntos dos quais eu nunca ouvi em sala de aula? Analisar problemas
sobre os quais a própria comunidade científica ainda se debruça, refletir e
dissertar sobre questões filosóficas que são discutidas há séculos pelos
maiores pensadores da história, analisar obras que eu sequer conhecia até então?
Não pode ser bom sujeito. Por acaso ignora que seu papel é me fornecer acesso
simples e bem delimitado às teorias, fórmulas, leituras e metodologias exigidas
pelo ministério da Educação ou pela Academia? Não percebe o quanto está sendo
exigente? Desde quando estudar é sinônimo de ser autônomo? Seu papel, como
professor, é ser um livro, só que mais simples de entender e menos trabalhoso.
Tenho a impressão de que se todos
os professores seguissem a filosofia da maioria dos estudantes, estaríamos
ainda morando em cavernas e fazendo fogo com pedras e folhas secas. Mas sabem
como é, rebanho é rebanho. Esteja nas salas de aula ou nas empresas, sempre
será rebanho.
Imagine se todas as pessoas
nascidas em gerações posteriores à descoberta do fogo e da roda se limitassem a
repassar conhecimento (pensemos em alguns nomes, sem ordem cronológica ou de
importância: Sócrates, Kant, Galileu, Isaac Newton, Nietzsche, Sartre, Picasso,
Marie Curie, Aristóteles, Shakespeare, Cavendish, Nikola Tesla, Van Gogh,
Mozart, Beethoven, Graciliano Ramos, Da Vinci, Heidegger, Camus, João Gilberto,
Stephen Hawking, Roger Penrose... acho que me fiz entender). O que seria a
sociedade humana (se é que existiria...)?
Meu ponto de vista é: ao estudar,
praticar, pensar ou “ensinar” quaisquer coisas, não deveríamos nos limitar a
repassar e reproduzir conhecimentos já aprendidos. O mais interessante nos
estudos não é meramente assimilar postulações alheias, como se aprender fosse apenas
fazer download de arquivos prontos de um cérebro pra outro, ou de um livro para
si mesmo. Isto também é importante, pois dessa forma nos poupamos de reinventar
a roda e nos identificamos com obras já aprofundadas e bem trabalhadas. Mas se
o processo para aí, estudar torna-se sem sentido.
A essência do ato de pensar, pesquisar
e estudar é a busca pelo aprofundamento das mais variadas questões, e isso supera
em muito a simples assimilação de conceitos já formulados. É importante o
contato aprofundado com conceitos atuais, porém sempre de forma crítica – no
sentido de não tratá-los como verdades absolutas – e imaginativa, para não
apenas aceitá-los como dogmas, e sim entendê-los, despertar novas sensações e dúvidas,
e, dentro de nossas possibilidades, apresentar novas perspectivas.
Quando quiser saber a opinião de
um repetidor sobre determinado assunto, basta ler os livros ou conhecer as
obras do autor que ele citar. Repetir o que foi dito ou comprovado, há décadas
ou séculos, é o papel das obras originais. Creio que, ao ser humano disposto a pensar
ou produzir sobre qualquer coisa, caiba um papel “um pouco” mais independente,
criativo e desafiante.
As primeiras coisas que se "descobre" ao refletir sobre o ensino se encaixam muito bem em tudo que você escreveu. E eu diria que seu ultimo texto também tem muito a ver com esse, pois o conhecimento repetido nos serve como para a ciência: Adquirimos e transformamos-o em mais.
ResponderExcluirSó não gosto muito dessa coisa de rebanho. Parece-me que qualquer um que pertença ao "rebanho" é apenas um punhado de vários ângulos do senso-comum. E o senso-comum, ao meu ver, não nos é tão importante quanto o nosso pensamento individual - coisa que até alguém que faça parte do "rebanho" certamente tem.
No mais, seu texto está ótimo. Continue escrevendo!
Olá R. Ferreira!
ExcluirÉ exatamente como vejo o aprendizado.
Só a título de esclarecimento, quando uso o termo "rebanho" o faço no sentido usado por Nietzsche em muitas de suas obras: a mentalidade de não questionar o vigente, e seguir sempre o fluxo. De forma alguma digo isso como um rótulo de inferioridade, mas sim como uma separação de maneiras de enxergar e lidar com a vida.
Muito obrigado pela visita e pelo comentário!