terça-feira, 30 de outubro de 2012

Debates, Embates e Verdades



A mudança do gosto geral tem muito mais importância que a das opiniões. As opiniões, com suas provas, refutações, e toda a mascarada intelectual que as acompanha, são apenas os sintomas de uma mudança do gosto, e não, certamente que não, aquilo porque são ainda geralmente consideradas: as causas dessa mudança do gosto. (NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §39)


Houve um tempo em que eu me preocupava em passar minha opinião adiante. Não apenas em expor o que pensava, mas em me certificar de que outras pessoas estavam escutando e tentando compreender o que eu pensava.

Não sei por que fazia isso, só sei que fazia.

Talvez quisesse colonizar o outro. Pensava ser muito crítico, e acreditava que sempre tinha uma opinião sólida e bem formada a respeito de qualquer assunto que eu me dispusesse a formar uma opinião. A partir daí, por acreditar que tinha uma opinião boa e bem formulada, achava que deveria presentear a todos com meus bem fundamentados pontos de vista.
Talvez fosse o que Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, chamou de juventude passageira. Talvez não. O fato é que passou.

Lembro-me de tantas e tantas vezes em que me engalfinhei em debates, pessoalmente ou pela internet, sobre os mais variados temas e acontecimentos. Religião, ciência, moral, política, futebol; tudo que eu pudesse fazer uma pesquisa mínima e aprofundada o suficiente pra me deixar seguro de ter feito uma boa opção, de ter encontrado o melhor ponto de vista.

Sentia um prazer estranho – um misto de vontade de me impor e necessidade de me sobressair – em defender a “causa” da qual eu fizesse parte, não importava o motivo pelo qual eu defendesse essa causa ou ponto de vista. Bastava ter feito uma opção em alguma época da minha vida pra que me inclinasse à certeza de que todos os fatos apontavam o quanto minha opção era a melhor, independente de qual fosse o critério de avaliação.

Ora, qualquer pessoa com a mínima noção sobre a relatividade dos referenciais sabe que nada pode ser “melhor” a partir de qualquer critério. A partir do momento em que há a disposição para se pensar e comparar duas coisas, nada é absoluto. Tudo depende dos referenciais escolhidos. Toda opinião só é boa ou ruim a partir do momento no qual definimos o quê significa bom ou ruim – e provavelmente por isso mesmo há a tendência da maioria das pessoas em tentar absolutizar suas escolhas, a ponto inclusive de transformar suas escolhas em obrigações para si e outros. Quase sempre o discurso dito não-impositor serve apenas pra tornar a própria tirania mais diplomática.

É raro quem diga “essa é apenas a minha opinião”  e ao mesmo tempo pense que a opinião contrária possa estar certa. Não falo daquela falsa humildade que diz deixar essa possibilidade em aberto mas guarda a certeza da superioridade de sua opinião; falo do sincero interesse pela verdade de cada fato, que dispõe o indivíduo a investigar a fundo o que não conhece e, se necessário, abrir mão de suas posturas e certezas mais instintivas e viscerais, bem como da difícil percepção de que cada ideia sobre qualquer assunto é apenas uma abstração pessoal, referenciada nas próprias experiências.

Na maioria das situações onde vemos duas opiniões se encontrarem, nos deparamos com um embate entre egos. Desde os embates mais elegantes, repletos de eloquente fundamentação teórica, filosófica e experimental, até os mais populares, onde tudo se limita a ofensas pessoais e sofismas lançados pra se conquistar público: o que se vê quase sempre são esforços hercúleos em “vencer o debate” – e não a tentativa curiosa, gratuita (quase infantil) de promover o diálogo e a busca por despir-se de paradigmas antigos na procura pela verdade particular de cada fato – seja esta o que for.

Foi o tempo em que eu valorizei e acompanhei de camarote discussões com “bons argumentos”, “racionais”, “sem falácias” e “com boas evidências”. Diverti-me por algum tempo com isso, até perceber que tudo girava em torno de defender posturas tanto quanto os embates corriqueiros e vulgares que sempre tinha visto sobre todos os outros assuntos; a velha briga de egos, só que agora vestida de terno e gravata. Excelentes argumentações, pontos de vista intelectuais, à prova de balas – criados apenas pra continuar com a velha defesa da própria opinião.

Enxergo nas pessoas uma séria dificuldade em carregar o fardo de serem responsáveis por suas escolhas. Cada opinião nada mais é do que fruto de uma escolha feita a partir de critérios próprios, voluntaria ou involuntariamente. Porém, aceitar essa responsabilidade exige muito mais coragem do que transformá-la em uma obrigação.

Dizer “eu escolhi um ponto de vista” gera menos segurança e conforto do que dizer “eu escolhi o melhor ponto de vista”. Porque ao relegar a um terceiro a responsabilidade da própria opção, tornando-a como uma obrigação pessoal, abre-se mão também da possível culpa que provenha dessa opção, bem como de outras consequências quaisquer.

Por exemplo, alguém que se dispõe a terminar uma faculdade apenas porque os pais mandaram, ou porque não quis sair no meio do curso quando viu que não se identificava com o mesmo. Ao se submeter a essa condição (de continuar o curso alegando uma obrigação externa), a pessoa entrega a infelicidade posterior à obrigação, e com isso guarda para si a garantia da futura autopiedade. Sabemos que é bem mais fácil sentir pena de si mesmo quando se faz cego – por duplipensamento* – para o fato de que a opção por continuar foi pessoal e própria, e que havia outras opções – ainda que estas exigissem esforço e confrontamento com outras pessoas e com os próprios paradigmas.

Será mais fácil também dizer “o candidato não cumpriu o que prometeu” do que “eu escolhi mal”, ou “a religião me obrigou a fazer isso” do que “eu optei por seguir a religião”.

É uma tendência humana a tentativa de absolutizar as próprias escolhas, no intuito de ter a ilusão de que se perdeu a responsabilidade sobre as opções feitas e as consequências provenientes destas.

Quando se elege um manual que diz o que é certo e errado, bom e mau, melhor e pior, além de conseguirmos outras pessoas que concordem com nossos pontos de vista, é mais fácil atribuir a insatisfação e angústia posterior, ou qualquer outra responsabilidade, ao manual – e não ao fato de que cada atitude baseada no manual foi uma opção pessoal, seja ela apoiada por muitos ou por ninguém.

Lidar com as questões da vida com as próprias mãos, assumindo a autoria de cada fracasso e sucesso posteriores – ou assumi-los ao perceber que a relegação a terceiros não passa de ilusão –, exige muito mais esforço e coragem.

Não tenho mais a vontade de convencer as pessoas a respeito do que penso. Não tenho mais o desejo de conseguir adeptos. Não tenho mais o impulso de engessar meus pontos de vista sobre quaisquer assuntos. Aprendi que é desnecessário e insensato ter opinião sobre tudo.

Embora em nossa sociedade a afirmação da dúvida seja mal vista – alguém que com frequência diz “não sei” certamente não é confiável... –, me parece hoje ser a melhor forma de compreender diferentes pontos de vista e de manter viva a consciência de que cada opinião provém de uma escolha e abstração pessoal, e que a “busca pela verdade” nada mais é que mais uma interação com a realidade que nos cerca, seja esta como for. Quando comecei a me dar conta de tudo isso, perdi o impulso de formular e emitir opiniões sobre tudo, sejam elas bem ou mal fundamentadas.

No instante em que penso em dizer algo em tom de postulação, começo a pensar na gama de informações às quais ainda não tive acesso, me lembro que há estudos e mais estudos sobre a área que envolve o assunto; então me dou conta do vasto universo de coisas que não sei que desconheço, e a vontade de emitir minha opinião cede espaço para a vontade de investigar e estudar o assunto. Depois que estudo e reflito o assunto o suficiente pra optar por uma inclinação ou pela manutenção da dúvida, a vontade de expor a opinião se foi, dando lugar à satisfação do conhecimento aprofundado e à curiosidade sobre outros temas, que sempre é gerada quando se obtém novos conhecimentos.

Talvez por isso sempre ouçamos que quem faz a humanidade caminhar não são as certezas, e sim as dúvidas. Só é triste ver essa frase geralmente servindo apenas pra manter imponente a autoafirmação de superioridade, e não pra despertar o impulso de passarmos da cátedra à biblioteca.

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* Termo utilizado no livro 1984, de George Orwell.

9 comentários:

  1. Daniel (ddimensoes)31 de out. de 2012, 23:51:00

    Excelente. Curioso é que estou percebendo o mesmo tipo de atitude em outras pessoas que já foram grandes levantadores de bandeiras, principalmente de ceticismo e ateísmo (inclusive eu mesmo). Tudo isso, toda essa mudança, faz parte.

    Somos criaturinhas interessantes e complicadas. E isso é massa. =)

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  2. Tenho observado isso também, Daniel.
    E concordo plenamente, somos incrivelmente interessantes sob um olhar mais refreado.
    Obrigado pelo comentário!

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  3. Muitos consideram mudanças de opinião uma falta de personalidade, já eu considero sinal de inteligência. Estarmos sempre abertos a nos rever é essencial pra uma curiosidade genuína.
    Obrigado pela contribuição, Jakin!

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  4. Pensar, então, é a experiência de desconstruir certezas?

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    1. É um bom significado, mas creio que muito curto pra um termo tão significativo. É uma das situações onde a linguagem é mais empecilho que ferramenta útil.

      Mas sim, pensar pode ser também a experiência de desconstruir certezas; e, se bem feito, substituindo-as pelo constante questionamento.

      Obviamente não há como fugirmos das crenças que "escolhemos". Apenas podemos dar a estas o patamar de crença pessoal (no sentido filosófico) - e não de certeza -, deixando sempre viva a possibilidade de revisão e mudança.

      Obrigado pelo comentário!

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  5. Antes eu estava sempre pronto para entrar em um debate, mesmo que eu tivesse apenas um minimo de conhecimento sobre o assunto que estava em pauta.
    Hoje, percebo que acontece comigo algo parecido com o que você descreveu nos últimos parágrafos. Perco completamente a vontade de debater quando noto o quão frágil e limitada é minha opinião, que eu posso estar completamente equivocado, que por mais que eu aprenda meu conhecimento sempre sera limitado...
    No fim, acabo por travar uma discussão contra eu mesmo, colocando tudo que sei em evidência.
    Descobri seu blog agora a pouco e gostei de tudo que li!

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    1. Nada melhor que esse embate consigo mesmo. É muito mais interessante que entrar em discussões sem fim onde o interesse não é um esclarecimento e investigação, mas sim vencer uma disputa de capacidade dialética.
      Muito obrigado pela visita e pelo comentário, Lithium!

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  6. É engraçado, mas quando resolvemos nos despir da idéia de tem que haver um vencedor em discussões, "em cima do muro" fica confortável, afinal, lá de cima se vê melhor!!
    Muito bons os posts, me surpreendi!

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    1. Concordo, Dani!
      O diálogo pelo simples prazer da troca de ideias, sem disputas, é muito mais prazeroso e produtivo. Em cima do muro pode realmente ser a melhor postura em inúmeras ocasiões. E que bom que se surpreendeu!
      Bjão, fico feliz pela sua visita!

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