sábado, 30 de março de 2013

O Papa e o Pastor


Há algum tempo o mundo presenciou a histórica renúncia de um papa. Um evento que, independente de religião ou crença, foi destaque em jornais por todo o mundo e assunto cotidiano, devido à importância não apenas religiosa do fato, mas também política.

Pouco tempo depois, temos a eleição de um papa argentino, e a escolha do nome Francisco - nome no mínimo sugestivo, pra quem conhece um pouco da fascinante história do "poverello d'Assissi".

E até então eu não havia tecido por aqui, nem em nenhuma rede social ou site, comentário algum sobre o fato. Mas hoje tive vontade. Este texto seria inicialmente uma postagem no facebook, mas, como sempre acontece comigo, fui escrevendo e escrevendo e escrevendo e em algum ponto o tamanho do texto me deu a certeza de que ninguém o leria. Decidi então escrever e escrever e escrever um pouco mais e postá-lo aqui.

Pois bem. Em uma data próxima aos eventos ocorridos no Vaticano, uma série de eventos aqui no Brasil também ganhou destaque. E foi a ontologia entre as posturas de um líder de lá e um daqui que
despertou em mim curiosidade. Inclusive mais que só uma curiosidade. Serei mais específico logo adiante.


No Brasil vejo Marco Feliciano, pastor neopentecostal e presidente da comissão de direitos humanos, "profetizando" o sepultamento dos pais de santo e fechamento de terreiros de macumba, dizendo que negros são descendência amaldiçoada de Noé e que mulheres não devem gozar dos mesmos direitos dos homens, fora os lamentavelmente já costumeiros comentários sobre homossexuais serem uma ameaça à sociedade. E mesmo com mil manifestações ocorrendo em todos os lugares, o sujeito, que se declara cristão, não demonstra um pingo de humildade diante do povo, diz que só sai do cargo morto e ainda tem, por nossas leis, a ABSURDA prerrogativa de mandar prender um manifestante por repetir que o país inteiro já está dizendo, e ainda transferir uma sessão pública pra uma sala restrita. Pra terminar, ele foi eleito por milhares de pessoas que realmente o consideram como um líder cristão e representante divino. Me desculpe se você, leitor, é parte deste número, mas nenhuma diplomacia no mundo me faria simular algum respeito por este político.

Ninguém faz ideia - com exceção talvez do grande amigo Miguel Angelo Caruzo, do blog Alétheia - de como essa soma de fatos (os ocorridos no Brasil) me deixou não apenas "politicamente indignado", mas chateado, inconformado por dentro. Me desanimou em muitos aspectos. Pra muitos pode ser simples relevar uma notícia, porém, a mim, incomoda assistir tantas pessoas dignas serem tratadas com tamanho desrespeito e ao mesmo tempo poder fazer tão pouca coisa (e às vezes nada) em relação ao assunto.

Voltando agora ao assunto inicial, tenho acompanhado desde o princípio as notícias sobre a eleição do novo papa. Quero esclarecer àqueles que me conhecem apenas pelo blog que sou ateu. Logo meu interesse sobre os atos do papa Francisco não é religioso, mas filosófico, político e principalmente humanista.

Logo no início, me surpreendi com a escolha do nome: papa Francisco. Admiro profundamente muitas figuras religiosas por suas histórias de vida e personalidade, mas por nenhuma tenho mais admiração (e até um certo carinho) que pela figura de Francisco de Assis. Fiquei então na expectativa de que este nome seja dignamente carregado. E fiquei contente ao saber que Jorge Mario Bergoglio era um cardeal dedicado aos pobres e ao diálogo inter-religioso.

A princípio já o vejo aconselhar a seus conterrâneos a não viajarem até o Vaticano para sua posse, mas a "doar aos pobres" o dinheiro da viagem. Então ele dispensa as várias vestes "reais" às quais o mundo já estava acostumado. Depois uma caminhada próximo ao povo, sem as costumeiras pompas. Me surpreendo ao saber que viverá em comunidade, e não no imenso "palácio papal" (não sei o nome correto do lugar). E no encontro com Joseph Ratzinger, antigo papa Bento XVI, o papa Francisco dá um (irônico?) presente a seu antecessor: um ícone de Nossa Senhora da Humildade.

Mas a notícia que realmente me tocou foi outra. Apesar da resistência do Vaticano, este papa abriu mão dos sacerdotes católicos, na tradicional quinta-feira santa, pra lavar os pés de rapazes e moças de uma cadeia, dentre eles muçulmanos, cristãos ortodoxos e ateus - escolhidos propositalmente com esta diversidade, a pedido dele. Esse é um dos atos simbólicos mais densos que vi ultimamente. A recusa da tradição de estar apenas com sacerdotes católicos pra estar com jovens presidiários que, além de não serem todos católicos, também não são apenas homens, e nem apenas cristãos. Alguns sequer sabiam quem ele era e qual o significado da cerimônia, ao que o pontífice explica: "isso é um símbolo e um gesto: lavar os pés quer dizer que estou a seu serviço". Logo imaginei como esse gesto, partindo de quem partiu, deve ter afetado a estes jovens, inclusive os que, como eu, não possuem crença religiosa - porque mesmo eu, a milhares de quilômetros do ocorrido, fui afetado de alguma forma.
Eu não enxergo na figura do papa um representante divino ou uma autoridade moral. Assim como discordo abertamente da postura da igreja católica em relação a vários assuntos práticos que a maioria de vocês provavelmente já conhece, e sei que provavelmente a mesma manterá sua posição em relação à maioria deles. E eu não compartilho de nenhuma das crenças sobrenaturais da igreja católica - embora não veja essa diferença de visões de mundo como um problema em nenhum âmbito.

Mas, apesar de todas essas ressalvas, devo admitir que este papa tem me surpreendido e despertado meu respeito, e que essa atitude no "lava-pés" me afetou, me despertou uma certa esperança, um sentimento agradável. Sim, foi apenas uma atitude simbólica, e sei que não vai ter impacto na realidade política brasileira. E pensando bem, são dois assuntos sem nenhuma conexão prática. Porém foram completamente interligados pra mim.

Depois de ver um líder religioso desrespeitar as diferenças de forma tão brutal e ainda ser escolhido pra presidir uma comissão de direitos humanos, emocionalmente me fez um imenso bem ver um representante religioso de peso ("ligeiramente" mais influente que Marco Feliciano) demonstrando a seus fiéis que a diferença de crença não implica em distanciamento, isolamento ou preconceito. Lavando os pés de presidiários ateus em Roma, de certa forma o papa Francisco lavou também meus pés. Depois de anos vendo o teólogo Joseph Ratzinger se fechar ao diálogo inter-religioso e fazendo declarações não apenas de divergências ideológicas, mas também de cunho preconceituoso, é bom ver um papa demonstrando esse tipo de respeito às divergências.

Não sei ainda quais críticas vou tecer no futuro ao novo papa. Não sei também que grandes indignações ele provavelmente causará em mim, e que discursos polêmicos talvez o mundo vá ouvir da boca dele. E minhas ressalvas sobre a influência da igreja católica no âmbito político permanecem.

Mas, neste momento, aplaudo o papa Francisco, e espero que seus fiéis enxerguem seu gesto com a mesma simplicidade e riqueza que eu o enxerguei.

E num sonho mais distante - visto termos a arte pra não morrer da verdade -, que outros líderes religiosos (os de boa fé, e não os da laia do deputado supracitado) também se dediquem mais a lembrar a seus fiéis que o mundo não é e nem precisa ser formado apenas por religiosos de uma mesma crença, vivendo sob preceitos morais idênticos. Isto certamente teria não apenas um impacto religioso, mas social e político incomensurável.

Mas aí já é devanear demais. Provavelmente um efeito colateral do lava-pés.

8 comentários:

  1. Esse papa é estrategista. Só isso.

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    1. E que líder no mundo está livre de sê-lo? Contanto que sua estratégia favoreça uma maior tolerância, ele ser um estrategista é um ponto positivo, e não negativo.
      Obrigado pelo comentário, Jackson Pinheiro!

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  2. O Feliciano tbm falou dos católicos, disse q eles recebem avivamento de Satanás. Esse cara é um louco .

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    1. Totalmente alienado, não demonstra um pingo de respeito por alguém que não represente a ele algum tipo de vantagem. Aliás, nem aos próprios fiéis.
      Obrigado pelo comentário!

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  3. Olá Davi.
    Gostei muito do seu texto.
    Não só pelo fato de de você ter aplaudido o Papa Francisco, mas sim pela forma de se expressar.
    Você escreveu muito, mas escreveu bem, de forma clara e compreensível.

    Torço pelo mesmo que você: que os fiéis enxerguem o gesto do Papa Francisco com simplicidade e riqueza, e mais que isso, que imitem este gesto em seu cotidiano.

    Abraço.

    Ana Virgínia

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    1. Oi Virgínia! Grande alegria pra mim receber sua visita aqui.
      Agradeço muito pelos elogios, e espero corresponder aos mesmos.
      Eu sinceramente tenho me simpatizado com o Papa Francisco, e será de grande impacto se os fiéis se dispuserem a imitá-lo, como você mesma disse. Afinal de contas, acolhimento é a maior característica do Jesus bíblico - logo, uma boa meta para qualquer cristão.

      Grande abraço e obrigado novamente pela visita!

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  4. [ Heryck ] Estou feliz por encontrar um blog de tão alto nível, em meio a internet. Já visitei inúmeros sites e blog e sempre me questionei se algum dia encontraria algum blog que levasse o português a sério e tivesse conteúdo imparcial.Com certeza encontrei. Ótimo texto, parabéns.

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  5. Muito bom. Muito coerente e perfeito nas suas colocações. Não conhecia essa página. De agora por diante vou acompanhar cotidianamente as postagens. Espero que não acabe, como tantas outras q eu vi desaparecer. Infeliizmente parece que o que é bom, morre cedo!

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