Compartilho aqui com
vocês de minha experiência de Páscoa.
Fui à casa de meus
pais no feriado prolongado. Em nosso almoço esteve presente um
padre, amigo da família, convidado por meus pais.
Antes da refeição, o
padre conduziu uma oração. Sabendo a família e o padre que ao
menos duas pessoas ali presentes abertamente não compartilham da
mesma crença – uma delas, eu –, não houve nenhuma menção ao
fato. Nenhuma tentativa de confronto, nenhuma palavra de ordem,
nenhuma condenação aos possuidores de ideias divergentes.
Apenas uma bonita
oração sobre o amor, a importância de, em outros momentos de
nossas vidas, nos lembrarmos de solidarizar com aqueles que não
possuem alimento e o desejo de um mundo melhor. Intenções nas quais
eu posso discordar em alguns pontos do modus operandi,
mas que compartilho do desejo e dos objetivos. Nas palavras
usadas para transmitir essas intenções, falou-se de Jesus e outros
elementos da crença católica, mas qualquer um que escute com um
pouco mais que apenas os ouvidos saberia entender o significado das
preces.
Ao
fim da breve oração, os que acreditam rezaram juntos um Pai Nosso,
os que não
acreditam ficaram em silêncio em respeito à inofensiva prática dos que acreditam. Um sinal da cruz e fomos para nossa refeição sem mais delongas.
acreditam ficaram em silêncio em respeito à inofensiva prática dos que acreditam. Um sinal da cruz e fomos para nossa refeição sem mais delongas.
Não
queimei. Não tive minha honra ferida. Não fiquei menos ateu. A
comida não ficou com gosto ruim. Não me senti atacado, excluído ou
inferiorizado. Pelo contrário, me senti feliz por saber que minha
família não se envergonha de praticar sua crença diante de mim,
nem se sente desconfortável em viver o que acredita em minha
presença. Assim como também não me senti envergonhado em ficar em
silêncio, nem constrangido por eles a participar de um ato motivado
por uma crença da qual não compartilho. Fiquei feliz por saber que
podemos ser nós mesmos na presença uns dos outros, sem precisar dos
melindres sociais que vestimos diariamente em nossos trabalhos,
faculdades e outros ambientes sociais.
Tenho
cada dia mais boas razões para pensar que o mantra “pessoas
merecem respeito, ideias não” é repetido, na maioria das vezes,
não em seu sentido originário, que preza pela importante postura de
sempre questionar ideias vigentes, e sim em nome de uma auto-promoção
que surge quando um diferente cria uma situação constrangedora
apenas “porque sim”. O sentimento de “ser um renegado” parece
alimentar o ego de muitos que poderiam pacificamente respeitar a
crença ou posição ideológica alheia em determinados momentos sem
nenhum dano.
![]() |
| À esquerda, Papa Francisco, principal líder católico da atualidade. À direita, Richard Dawkins, cientista renomado e ateu influente. |
Há
bons momentos para se questionar ideias vigentes e repensar posições
políticas, religiosas, filosóficas, científicas, etc., mas há
também bons momentos para se fazer uma pacífica e divertida
refeição com família e amigos sem precisar adentrar em nada disso.
Na sexta eu poderia ter postado a foto da carne que comi no almoço e
no domingo postar que Jesus nunca existiu, mas preferi na sexta
adiantar meus compromissos para poder passar o domingo com minha
família. Assim como o padre ou algum membro de minha família
poderia ter escolhido tentar nos evangelizar, falar sobre a
condenação reservada aos infiéis ou tentar nos obrigar a rezar
junto, mas, ao invés disso, escolheram praticar sua crença de forma
sincera e sem segundas intenções.
E,
graças a essas escolhas, assim foi nosso almoço de Páscoa: uma
tarde agradável que compartilhei com meus pais, irmãos, sobrinhas,
cunhados e um amigo da família.
O
mundo já está repleto de ideólogos ferrenhos e obstinados. Não
há melhor hora para que saiam do armário aqueles que expõe suas
ideias sem desaprender a conviver com as diferenças.

Boa! Issaê =)
ResponderExcluirmt bom :D
ResponderExcluirExcelente post, conheci seu canal do YT recentemente e gostei bastante!
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