segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Relações vs. Mudanças


As relações cotidianas sempre me despertaram interesse e curiosidade – além de uma grande dificuldade. 

Esse interesse cresceu ainda mais depois de começar o processo de "saída" (abandono) da religião católica. Todo pensante pensa a partir de si, e até por isso é inevitável me despertarem maior interesse assuntos que me toquem de forma direta.

Durante o período em que vivi a religião católica, vivi com dedicação e interesse genuínos. Busquei compreender a visão de mundo pregada pela igreja – visto esta ser, enquanto fui religioso, a principal função da religião em minha vida. Participei de grupos com os quais me identificava e pelos quais me interessava, e nestes grupos fiz inúmeras amizades.

E aí começam minhas dificuldades. A palavra “amizade” é, pra mim, mais uma das grandes e excessivas descontinuações exageradas que normalmente fazemos de realidades muito mais complexas, na tentativa de nos situarmos e organizarmos melhor, no sentido de tornar nossa vida mais prática e fácil. E vale mais a pena simplificar nossa visão de mundo em vista de uma existência mais fácil ou tentar abarcar o máximo que pudermos da complexidade dessa realidade em vista de, talvez, compensação nenhuma?

A resposta a essa pergunta, a meu ver, é critério pessoal e subjetivo.

Eu, por meus impulsos mais íntimos e compulsões mais sinceras – e talvez por isso tenha a ilusão de que faria a mesma opção se tivesse de alguma forma uma livre escolha a respeito do assunto –, prefiro abrir mão da paz interior trazida pela simplificação extremada da vida, em vista de conhecer ao máximo aquilo que posso do que sinto, penso e experimento.

E exatamente por isso não gosto de atribuir matizes a relações e sentimentos. Usar uma mesma palavra – “amizade” – pra toda relação prazerosa não me parece inteligente. Enfim. Não é este o tema principal.

Neste tempo mantive amizade – e considere agora o que disse anteriormente sobre o termo – com muitas pessoas, e neste tempo julgava gostar delas e elas de mim. A princípio eu pensava gostar exatamente “delas” – seja lá o possível significado disso, pois nunca teremos um mínimo conhecimento do que as pessoas são, senão apenas de suas visões, a comunicação de seus sentimentos, seus comportamentos perante nós e todas as outras possíveis representações, e, ainda estas, poluídas quando passam pelo duplo filtro: o da externalização feita pela pessoa e o da tentativa de compreensão feito por mim; e nestes dois processos, acontecem outras mil deturpações daquilo que originalmente a pessoa é.

Gostar de outra pessoa sempre será, na verdade, gostar da relação temos/tivemos com a outra pessoa. Quando sentimos a falta da presença de alguém, o sentimos pelo que a presença alheia nos desperta (ou despertava), e não pelo que a pessoa é. Porque jamais provaremos outra experiência de existência que não a nossa. Jamais provaremos aquilo que a pessoa é - até porque o ser humano não é estático. Como já disse Heráclito, ninguém se banha no mesmo rio duas vezes, pois as águas já são outras e a pessoa já é outra. Sentimos falta é da existência experimentada com a presença da relação com o outro, e não meramente a presença do outro. E é aí que as relações de amizade, amor e outros tabus da nossa sociedade precisam ser observadas com um olhar menos tirânico, delimitador, romantizado. Se o motivo de prazer é a existência experimentada na presença do outro e as pessoas possuem um potencial de mudança – cujos limites são desconhecidos por nós –, porque seria inteligente colocar rótulos estáticos nessas relações?

Uma das grandes dificuldades que encontrei quando deixei a religiosidade e, por fim, a crença na existência de um ser superior e suprapessoal, foi a readaptação das relações, tanto de minha parte quanto de parte daqueles que conviviam comigo.

Estava mudado no aspecto mais primordial e freqüente na comunicação de mim mesmo. A grande representação feita de mim pelas pessoas mais próximas – com exceção de minha família e amizades independentes do âmbito religioso da minha personalidade – era a do cristão apaixonado, estudioso da bíblia, dedicado à vida de oração, pregador e animador religioso. Era essa presença que experimentavam de mim e da qual gostavam. E é basicamente o que teriam pra gostar: a relação com uma pessoa que partilhava visões de mundo a partir de um mesmo ângulo. Com minha descrença, essas relações acabaram por se tornar não apenas infrutíferas, mas desagradáveis e prejudiciais em algum ponto.

Pra que relações afetivas se mantenham após uma mudança da parte de um dos lados, é necessária a disposição de ambos em experimentar essa relação a partir de um novo aspecto. E é durante essa experimentação que amizades nascem, permanecem ou morrem – e este é o ponto onde muitas pessoas começam a destilar seu recalque, gritar a todos que amizades “verdadeiras” não morrem, espalhar defeitos e segredos de outras pessoas e outras atitudes certamente perceptíveis no dia a dia.

Se essa experimentação se mostra atraente pra ambos os lados de alguma forma, o laço se mantém de acordo com a disposição e as características de cada um – ainda que não haja a presença freqüente ou compromissos externados. Se não, a relação toma outros rumos – em geral, o afastamento. Não o afastamento da presença, pois mesmo na ausência pode-se manter um laço intocado, mas o afastamento da relação, do compartilhamento de ideias e sentimentos; enfim, o afastamento do comportamento amigável anteriormente presente.

E esta tentativa de manutenção do laço se mostrou prejudicial – neste meu caso específico – no sentido de que não havia a busca da adaptação da relação, e sim a forçosa e desagradável tentativa de recuperar a relação perdida. Não havia mais o homem religioso, mas havia, de um dos lados, a procura pela relação com o homem religioso. Não havia a procura pela pessoa habituada a externalizar as próprias idéias, e sim a procura pela pessoa que compartilhava da mesma visão religiosa a respeito da vida – além de todas as outras exigências feitas por aqueles que atribuem uma função moral à religião.

Das pessoas com quem eu tinha um bom relacionamento no meio religioso, poucas tiveram a disposição em fazer as adaptações necessárias. Como já disse, gostamos é das representações feitas do outro; e quando estas representações começam a precisar de ajustes demais, temos a impressão de o outro já não ser mais a pessoa com quem nos relacionávamos – e esta dedução está correta! O problema é a ignorância a respeito de nós também não sermos mais a mesma pessoa que se relacionava com o outro.

Diante disso, optei pela desistência de muitas relações. Quando são necessárias adaptações demais, fica óbvia a impossibilidade de manter a relação, já que esta se torna desagradável, exigente de cuidados demais, excludente de sinceridade; acaba por se tornar mais corrente que laço.

E isto é normal nas relações humanas. A princípio me causou desgosto e revolta, por ainda não ter considerado esses aspectos. Mas a reflexão e a análise da realidade nos mostram que inevitavelmente este aspecto da vida funciona assim.

Podemos perder ou podar nossa subjetividade, riqueza interior e experimentação da vida na tentativa de manter relações que já não funcionam mais ou nos dispor a perder relações agora impraticáveis – ainda que isso exija esforço e aceitação de uma desagradável realidade – a fim de nos somarmos a novas pessoas, de visões, gostos e intenções semelhantes ou não, porém que se revelam como relações que acrescentam nossa experiência de existência de uma forma atraente, de alguma forma, a nós.

8 comentários:

  1. Parabéns pelo texto, Davi!

    Um dia li a frase de um pensador que dizia: "Mudei para permanecer o mesmo". No contexto desse pensador a tentativa era de afirmar-se em suas convicções. E para seguir em suas buscas mais profundas foi preciso que houvesse mudanças por parte dele - grandes mudanças. Hoje odiado por uns e respeitado por outros, ele permanece em suas constantes metas sem que os reveses das "amizades" perdidas o abalem.

    Portanto, siga em frente!

    Abraço!
    Miguel Angelo.

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    1. Obrigado Miguel!
      Toda mudança exige de nós resignação e resiliência, pois não há como mudarmos sem afetar nosso meio e nossos círculos, sejam estes pessoais, profissionais ou de qualquer outro tipo.

      Sigamos mudando!

      Abraço e obrigado pela contribuição!

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  2. Fernanda C. Fonseca6 de nov. de 2012, 12:33:00

    Excelente texto Davi.
    Uma grande verdade sobre as relações.

    Abraços!

    Fernanda C. Fonseca

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    1. Fico feliz por compartilharmos dessas ideias, Fernanda.
      Obrigado pelo comentário!

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  3. Concordo com você Davi, nós, seres humanos, estamos em constante mudança. Por tanto, é inconcebível a existência de relacionamentos estáticos. Amizades, por exemplo, na maioria das vezes são momentâneas; isso não diminui diminui o valor dessas relações. Porém, é bom estar ciente disso quando nos relacionamos com alguém.

    Parabéns pelo blog!
    Abraços,
    Júlia

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    1. Excelente comentário, Júlia!
      É importante a consciência efemeridade de tudo na vida (inclusive da própria), e de que o valor das relações não mora em sua duração, mas sim na experimentação da mesma.
      Obrigado pela visita e pela contribuição.
      Grande abraço!

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  4. Sempre fui um amante das relações humanas, sempre gostei de observar, analisar e tentar compreender a interação entre indivíduos e o meio, no âmbito social. Em contra partida, sempre tive dificuldade em enfrentar e encarar essas relações, quando estas me envolviam.
    Nunca tinha observado a relação de "amizade" dessa forma. Confesso que depois que li seu texto passei por um momento de reflexão. Recordo-me das inúmero de vezes que, depois de ter mudado minha forma de ser e de pensar (também já fui cristão e católico), tive que reprimir o meu "novo eu" para continuar mantendo relações com velhos amigos, já que as mesmas não pareciam acompanhar minha mudança. Com o tempo percebi que não vale a pena forçar relações, quando estas não evoluem junto com ambos os indivíduos; as vezes o melhor a se fazer é deixar para traz.
    Como sempre um ótimo texto seu!
    Abraço!

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    1. Olá Lithium!
      Com o tempo (e as mudanças) vamos notando que não há outra saída saudável para relações senão a mudança ou, em último caso, o fim.
      Fico feliz por notar em suas palavras que consegui passar meu ponto de vista.
      Muito obrigado pelo comentário! Abraço!

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