As relações cotidianas sempre me despertaram interesse e curiosidade – além de uma grande dificuldade.
Esse interesse cresceu ainda mais
depois de começar o processo de "saída" (abandono) da religião católica. Todo pensante pensa a partir de si, e até por isso é inevitável me despertarem maior interesse assuntos que me
toquem de forma direta.
Durante o período em que vivi a religião católica, vivi com
dedicação e interesse genuínos. Busquei compreender a visão de mundo pregada
pela igreja – visto esta ser, enquanto fui religioso, a principal função da religião em
minha vida. Participei de grupos com os quais me identificava e pelos quais me interessava,
e nestes grupos fiz inúmeras amizades.
E aí começam minhas dificuldades. A palavra “amizade” é, pra mim, mais uma das grandes e excessivas descontinuações exageradas que normalmente fazemos de realidades muito mais complexas, na tentativa de nos situarmos e organizarmos melhor, no sentido de tornar nossa vida mais prática e fácil. E vale mais a pena simplificar nossa visão de mundo em vista de uma existência mais fácil ou tentar abarcar o máximo que pudermos da complexidade dessa realidade em vista de, talvez, compensação nenhuma?
A resposta a essa pergunta, a meu ver, é critério pessoal e
subjetivo.
Eu, por meus impulsos mais íntimos e compulsões mais
sinceras – e talvez por isso tenha a ilusão de que faria a mesma opção se
tivesse de alguma forma uma livre escolha a respeito do assunto –, prefiro
abrir mão da paz interior trazida pela simplificação extremada da vida, em vista
de conhecer ao máximo aquilo que posso do que sinto, penso e experimento.
E exatamente por isso não gosto de atribuir matizes a
relações e sentimentos. Usar uma mesma palavra – “amizade” – pra toda relação
prazerosa não me parece inteligente. Enfim. Não é este o tema principal.
Neste tempo mantive amizade – e considere agora o que disse
anteriormente sobre o termo – com muitas pessoas, e neste tempo julgava gostar delas e elas de mim. A princípio eu pensava gostar exatamente “delas” – seja lá o possível significado disso, pois nunca teremos
um mínimo conhecimento do que as pessoas são, senão apenas de suas visões, a
comunicação de seus sentimentos, seus comportamentos perante nós e todas as outras
possíveis representações, e, ainda estas, poluídas quando passam pelo duplo filtro: o
da externalização feita pela pessoa e o da tentativa de compreensão feito por
mim; e nestes dois processos, acontecem outras mil deturpações daquilo que
originalmente a pessoa é.
Gostar de outra pessoa sempre será, na verdade, gostar da
relação temos/tivemos com a outra pessoa. Quando sentimos a falta da presença
de alguém, o sentimos pelo que a presença alheia nos desperta (ou despertava),
e não pelo que a pessoa é. Porque jamais provaremos outra experiência de
existência que não a nossa. Jamais provaremos aquilo que a pessoa é - até
porque o ser humano não é estático. Como já disse Heráclito, ninguém se banha
no mesmo rio duas vezes, pois as águas já são outras e a pessoa já é outra. Sentimos falta é da existência experimentada com a presença da relação
com o outro, e não meramente a presença do outro. E é aí que as relações de
amizade, amor e outros tabus da nossa sociedade precisam ser observadas com um
olhar menos tirânico, delimitador, romantizado. Se o motivo de prazer é a
existência experimentada na presença do outro e as pessoas possuem um potencial de mudança – cujos limites são desconhecidos por nós –, porque seria
inteligente colocar rótulos estáticos nessas relações?
Uma das grandes dificuldades que encontrei quando deixei a
religiosidade e, por fim, a crença na existência de um ser superior e
suprapessoal, foi a readaptação das relações, tanto de minha parte quanto de
parte daqueles que conviviam comigo.
Estava mudado no aspecto mais primordial e
freqüente na comunicação de mim mesmo. A grande representação feita de mim pelas pessoas
mais próximas – com exceção de minha família e amizades
independentes do âmbito religioso da minha personalidade – era a do cristão
apaixonado, estudioso da bíblia, dedicado à vida de oração, pregador e animador
religioso. Era essa presença que experimentavam de mim e da qual gostavam. E é
basicamente o que teriam pra gostar: a relação com uma pessoa que partilhava visões de mundo a partir de um mesmo ângulo. Com minha descrença, essas relações acabaram por se tornar
não apenas infrutíferas, mas desagradáveis e prejudiciais em algum ponto.
Pra que relações afetivas se mantenham após uma mudança da
parte de um dos lados, é necessária a disposição de ambos em experimentar
essa relação a partir de um novo aspecto. E é durante essa experimentação que
amizades nascem, permanecem ou morrem – e este é o ponto onde muitas pessoas começam a destilar seu recalque, gritar a todos que amizades
“verdadeiras” não morrem, espalhar defeitos e segredos de outras pessoas e outras
atitudes certamente perceptíveis no dia a dia.
Se essa experimentação se mostra atraente pra ambos os lados
de alguma forma, o laço se mantém de acordo com a disposição e as
características de cada um – ainda que não haja a presença freqüente ou compromissos
externados. Se não, a relação toma outros rumos – em geral, o afastamento. Não
o afastamento da presença, pois mesmo na ausência pode-se manter um laço
intocado, mas o afastamento da relação, do compartilhamento de ideias e
sentimentos; enfim, o afastamento do comportamento amigável anteriormente
presente.
E esta tentativa de manutenção do laço se mostrou
prejudicial – neste meu caso específico – no sentido de que não havia a busca
da adaptação da relação, e sim a forçosa e desagradável tentativa de recuperar
a relação perdida. Não havia mais o homem religioso, mas havia, de um dos
lados, a procura pela relação com o homem religioso. Não havia a procura pela
pessoa habituada a externalizar as próprias idéias, e sim a procura pela pessoa que
compartilhava da mesma visão religiosa a respeito da vida – além de todas as outras exigências feitas por aqueles que atribuem uma função moral à religião.
Das pessoas com quem eu tinha um bom relacionamento no meio
religioso, poucas tiveram a disposição em fazer as adaptações necessárias. Como já disse, gostamos é das representações feitas do
outro; e quando estas representações começam a precisar de ajustes demais,
temos a impressão de o outro já não ser mais a pessoa com quem nos
relacionávamos – e esta dedução está correta! O problema é a ignorância a
respeito de nós também não sermos mais a mesma pessoa que se relacionava com
o outro.
Diante disso, optei pela desistência de muitas relações. Quando
são necessárias adaptações demais, fica óbvia a impossibilidade de manter a relação, já que esta se torna desagradável, exigente de cuidados demais,
excludente de sinceridade; acaba por se tornar mais corrente que laço.
E isto é normal nas relações humanas. A princípio me causou
desgosto e revolta, por ainda não ter considerado esses aspectos. Mas a
reflexão e a análise da realidade nos mostram que inevitavelmente este aspecto
da vida funciona assim.
Podemos perder ou podar nossa subjetividade, riqueza
interior e experimentação da vida na tentativa de manter relações que já não
funcionam mais ou nos dispor a perder relações agora impraticáveis –
ainda que isso exija esforço e aceitação de uma desagradável
realidade – a fim de nos somarmos a novas pessoas, de visões, gostos e intenções semelhantes ou não, porém que se revelam como relações
que acrescentam nossa experiência de existência de uma forma atraente, de
alguma forma, a nós.
Parabéns pelo texto, Davi!
ResponderExcluirUm dia li a frase de um pensador que dizia: "Mudei para permanecer o mesmo". No contexto desse pensador a tentativa era de afirmar-se em suas convicções. E para seguir em suas buscas mais profundas foi preciso que houvesse mudanças por parte dele - grandes mudanças. Hoje odiado por uns e respeitado por outros, ele permanece em suas constantes metas sem que os reveses das "amizades" perdidas o abalem.
Portanto, siga em frente!
Abraço!
Miguel Angelo.
Obrigado Miguel!
ExcluirToda mudança exige de nós resignação e resiliência, pois não há como mudarmos sem afetar nosso meio e nossos círculos, sejam estes pessoais, profissionais ou de qualquer outro tipo.
Sigamos mudando!
Abraço e obrigado pela contribuição!
Excelente texto Davi.
ResponderExcluirUma grande verdade sobre as relações.
Abraços!
Fernanda C. Fonseca
Fico feliz por compartilharmos dessas ideias, Fernanda.
ExcluirObrigado pelo comentário!
Concordo com você Davi, nós, seres humanos, estamos em constante mudança. Por tanto, é inconcebível a existência de relacionamentos estáticos. Amizades, por exemplo, na maioria das vezes são momentâneas; isso não diminui diminui o valor dessas relações. Porém, é bom estar ciente disso quando nos relacionamos com alguém.
ResponderExcluirParabéns pelo blog!
Abraços,
Júlia
Excelente comentário, Júlia!
ExcluirÉ importante a consciência efemeridade de tudo na vida (inclusive da própria), e de que o valor das relações não mora em sua duração, mas sim na experimentação da mesma.
Obrigado pela visita e pela contribuição.
Grande abraço!
Sempre fui um amante das relações humanas, sempre gostei de observar, analisar e tentar compreender a interação entre indivíduos e o meio, no âmbito social. Em contra partida, sempre tive dificuldade em enfrentar e encarar essas relações, quando estas me envolviam.
ResponderExcluirNunca tinha observado a relação de "amizade" dessa forma. Confesso que depois que li seu texto passei por um momento de reflexão. Recordo-me das inúmero de vezes que, depois de ter mudado minha forma de ser e de pensar (também já fui cristão e católico), tive que reprimir o meu "novo eu" para continuar mantendo relações com velhos amigos, já que as mesmas não pareciam acompanhar minha mudança. Com o tempo percebi que não vale a pena forçar relações, quando estas não evoluem junto com ambos os indivíduos; as vezes o melhor a se fazer é deixar para traz.
Como sempre um ótimo texto seu!
Abraço!
Olá Lithium!
ExcluirCom o tempo (e as mudanças) vamos notando que não há outra saída saudável para relações senão a mudança ou, em último caso, o fim.
Fico feliz por notar em suas palavras que consegui passar meu ponto de vista.
Muito obrigado pelo comentário! Abraço!